A Perversidade de Zerbini

 

Em sua exposição de agopsto de 99, Zebini nos coloca sua grande perversão. Quando se chega ˆ exposição, vê-se telas cheias de detalhes, muito bem pintadas. A primeira vista estas pinturas nos enchem os olhos e desta forma, ingenuamente nos colocamos diante delas sem conflitos e com a certeza de que a pintura contemporânea reencontrou o seu caminho de beleza e destreza manual.

Mas de repente descobrimos que suas pinturas são resultado de uma técnica simples de marmorização, onde se coloca a tela ou o papel em contato com as tintas boiando sobre a água de modo a formarem uma sopa psicodélica que é fixada ˆ tela quando esta é levantada.

Agora sim é que começa o jogo proposto por Zerbini: Poderia uma pintura tão exuberante ser apenas um resultado de uma operação tão simples? Poderia. Então seria isto arte ? Seria.

O público não iniciado acredita que a pintura se faz de destreza manual misturada ˆ procura da beleza imediata, Zerbini oferece a ilusão desta mistura, para logo após retirar todo o chão que fundamenta esta idéia, deixando o espectador só, sem saber o que fazer. O que sobra é, aparentemente, uma pintura vazia de significado e de poética. Mas deste vazio surge o que há de mais potente na arte contemporânea, ou seja, a própria conceituação da arte. Zerbini dá e tira, e deixa no lugar a questão fundamental e central do que é a arte e até onde ela vai.

A pintura de Zerbini num primeiro momento aparece solida como uma parede de ferro e num segundo momento se levanta como se fosse uma cortina de seda e mostra por trás o vazio. A perversidade de Zerbini consiste em dar e retirar, em ser pintura popular e pintura conceitual.

Esta exposição resume a mecânica da arte atual: ela se mostra fácil e sedutora, e em outro momento dá o bote, trazendo o veneno do questionamento e da auto conceituação. Zerbini não tem dúvidas do que sua pintura é, se existe alguma dúvida esta dúvida está nas mãos do observador. A bem da verdade estas pinturas funcionam como um espelho: se quem olha quer ver um pintor virtuoso, esta visão é possível, mas, se quem olha quer ver um artista que consegue armar sua teia conceitual e nos prender nela, também será bem sucedido.