A Utopia Realizável

(texto publicado em 04/2000 no folder da exposição de Carla Zaccagnini na Galeria Adriana Penteado)

 

O conceito de utopia na arte tem sido redefinido constantemente por alguns artistas, principalmente nos últimos 100 anos, quase como se, questionar os limites da arte, e tornar possível o que parecia impossível, fosse sinônimo de fazer arte. Este tem sido o lado bom, tornar a arte mais sofisticada e complexa. O lado ruim é que a arte tem se afastado da pessoa comum. O consolo é que a arte não é a única área a se especializar damasiadamente.

Carla Zaccagnini apresenta uma proposta de arte que caminha nesta mesma direção. Sua instalação feita através de uma frotagem em grafite sobre papel no piso de taco, ocupando a totalidade do primeiro andar da galeria, aponta para esta possibilidade. Esta obra engenhosamente trama relações com as obras de artistas como Rachel Whiteread por tornar concreto o espaço vazio; e com Adriano Pedrosa por dar ˆ obra sobre papel uma amplitude que transcende o seu suporte. Uma obra frágil em que se pode pisar e assim seguir captando e mapeando a ação do tempo e das atividades do espaço expositivo de uma galeria de arte e simultaneamente uma obra em que o observador é obrigado a estar dentro dela.

A instalação questiona o conceito de utopia pois no momento em que passa a existir deixa de ser utópica para ser real e exeqŸível. Utopia aqui está sendo entendida como irreal, irrealizável. E mesmo assim, sendo real, esta obra expõem a sua precariedade e o seu caráter quase efêmero. Estamos diante de uma utopia cotidiana, que se reconstrói a cada dia. Hoje a obra é possível, e o futuro desta obra depende da manutenção diária da artista, de uma defesa do realizável em detrenimento do irrealizável. Outras obras completam esta mostra como desenhos feitos ao redor de frutas até que estas tenham se desmanchado, desenhos em contornos de cacos de copos e uma frotagem sobre uma mala de viagem.

Carla assume o cotidiano e a manutenção desta utopia. A artista está livre para realizar o que bem entender, mas depois, para sempre, será responsável pelas suas propostas, terá que guardá-las, arquivá-las e repensá-las indefinidamente. Este é um dos papéis do artista: realizar o impensável, o irrealizável, pensar os limites e os excessos.