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O Romance Enigmático
Um banco de igreja formando um círculo, com o genuflexório para fora e o assento para dentro, é um dos trabalhos de João Loureiro que mais sintetiza a sua linguagem e o seu discurso. Sua obra se caracteriza por uma investigação introspectiva que busca remontar uma história que se perdeu em algum ponto do passado. Como em um romance, João conta uma história, capítulo após capítulo, linear e meticulosamente. Seus desenhos, esculturas e pinturas são elos de uma corrente disforme. A história é um enigma sem personagens, sem começo e fim. O enigma opera com a ausência, com o vazio e a falta. Pode ser o elemento de uma equação que não está presente (ausência), pode ser um espaço entre um objeto e seu significado (vazio) e pode ser a peça de um todo que está faltando (falta). A obra de João funciona dentro deste campo, elaborando relações lógicas e deixando espaços vazios para a contemplação poética. Em certos momentos porém, as obras se distanciam do contato com o outro, como num trabalho recente, onde um grupo de telas de arame é depositado e sobreposto horizontalmente sobre uma rampa ligeiramente inclinada, tornando esta peça um tanto inviolável e hermética. Mesmo assim esta escultura mostra que apesar da pouca comunicação a arte ainda é arte, ou seja a obra de arte não necessita exclusivamente de comunicação como a publicidade. Outras obras, no entanto, executadas em tricô, inspiradas nas cores e formas de embalagens de remédios, comunicam os seus motivos, e mesmo assim contendo esta narrativa, não esgotam a poética. O seu vocabulário é formado pelo universo doméstico: armários, puffs, pés de cama, mesa de sinuca, e etc., mas este lugar é, muitas vezes, um lugar agigantado, como se fosse visto pelos olhos de uma criança. Estas obras trazem uma visão nostálgica de uma infância ausente. João loureiro trabalha como um cientista que realiza uma experiência estética em que faz a comunicação em arte ser uma matéria elástica, esticando e contraindo sem rompimento e desta forma entendendo e alargando os sentidos da arte sem eximir-se de dar um testemunho de sua perplexidade diante da vida. |