A Feiticeira e as máquinas* | Sergio Romagnolo
Capítulo I
Eram só o homem-máquina e a Feiticeira, não havia pessoas,
animais ou insetos. O dia estava claro, com o céu todo azul, sem nuvens.
O clima, ameno, como quando a temperatura ambiente é a mesma do corpo,
como se o ar vestisse a pele como roupas. O mecanismo tinha forma indefinida
e estava em todo lugar, era onipresente e onisciente. A Feiticeira era uma
mulher de uns quarenta anos, bonita, com bochechas cheias e lábios grossos.
O homem-máquina e a Feiticeira andavam conversando pelo cais, na cama,
antes de dormir ou na hora do almoço. Tudo o que se podia ouvir eram
as suas vozes e o som do vento.
“Quero te contar uma história”, disse a mulher para o aparelho,
como se fosse a primeira vez, mas essa não era a primeira história
que surgia na conversa.
“Continue, estou ouvindo e pensando em outras coisas, mas estou ouvindo…”
“Era uma família de super-homens. Nessa altura da vida já haviam
se passado muitas gerações, e com o tempo a penetração
da imigração japonesa foi aumentando. A história acontece
numa dessas famílias de descendentes de Clark Kent, sendo todos japoneses.
Num dia qualquer, estavam todos reunidos numa ruazinha perto de casa. Estavam
todos concordando que deveriam trabalhar muito mais, estavam planejando isso,
quando o único parente não super-homem deu a sua opinião
(ele entrou para a família quando se casou com a linda japonesinha,
filha do grande e gordo japonês de cara larga e óculos, descendente
direto do planeta Krypton):
‘É isso aí, precisamos trabalhar mesmo, daqui pra frente
vamos dar a maior força.’
Seu cunhado, tomado de euforia, disse:
‘É isso aí, vamos ser conhecidos como os Super-Homens Lagartos!’
O cunhado magrelo, não super-homem, entendeu errado e gritou zangado:
‘Super-Homem quadrado é a sua avó!’
Como sempre, os dois irmãos da mocinha lançam sobre ele um olhar
com raio fulminante de uma só vez. O magrelo vira fumaça. A sua
esposa olha com piedade, os dois irmãos fazem uma careta e, como sempre,
saem voando a toda a velocidade em torno da Terra para retroceder o tempo,
como se fosse a vigésima vez que isso acontecesse.”
“Que história estranha, parece mais uma piada sem final.”
“Na verdade, isso foi um sonho que tive uma vez e escrevi para não
esquecer. Eu gosto do jeito como a ideia de super-homem se mistura com a história
da mocinha e do cunhado, tornando tudo uma história de vida real.”
“Sabe, Feiticeira, esse silêncio, essa calma e essa história
que você contou me fazem pensar quantas coisas existiram no mundo e que
agora estão perdidas. Quantas coisas aconteceram com tanta gente, quantos
fatos, quanto trabalho, quanta energia, e tudo se perdeu, só resta você como
exemplo de como as pessoas eram. Pelo menos temos você, e você ainda
está cheia de vida e energia. Vamos continuar andando, quero falar como
vejo essa situação. Estive pensando em algumas normas sobre Arte
ou conselhos que podem ajudar a entender a vida melhor, você gostaria
de ouvir?”
“Claro, a sua voz me acalma e me lembra algumas pessoas que conheci.”
“1. Deus não existe, se existisse não haveria qualquer
razão para haver o mal. A não ser que se chame Deus o sopro de
vida, aí, então, Deus existe em todo lugar, pelo menos neste
planeta.”
“Depois de tudo o que aconteceu com todo mundo, seria estranho pensar
numa existência divina que toma conta de todos. Se existisse esse ser
divino e poderoso, ele deveria ter arranjado tudo para que as catástrofes
não tivessem acontecido. Por outro lado, só o fato de existir
uma pequena folha de planta já é uma coisa tão rara no
universo que parece um milagre, mesmo que tudo tenha se perdido”, completou
o mecanismo.
“Esse é o primeiro dos pensamentos, fala de Deus não existir,
o que parece muito desanimador, ou de existir em tudo; é bastante contraditório.”
“2. Se Deus não existe, o Homem surgiu por um acidente. O Homem
se mantém vivo para descobrir que outros acidentes existem no uni-
verso.”
“Agora você assume a não existência de Deus e a falta
de finalidade na existência. Às vezes parece que, se isso fosse
verdade, seria melhor esconder das pessoas essa verdade. As pessoas gostam
de pensar que a vida delas tem um porquê, tem uma razão de ser.
Como se elas dissessem: ‘eu nasci aqui para viver com estas pessoas e
ter estas experiências para aprender alguma coisa que seria utilizada
mais tarde em outro lugar’, outra vida, provavelmente. Seria muito estranho
para essas pessoas pensarem numa vida sem propósito especial, ‘nasci
aqui por acidente, foi uma coincidência enorme a Terra estar na distância
certa do Sol, a ponto de a água estar líquida e poder gerar vida,
então vou viver um pouquinho neste planetinha, vou aprender umas coisas,
vou conhecer umas pessoas, vou sentir coisas como nunca senti antes e depois
vou embora para sempre’, que deprê! Parece muito melhor pensar
num motivo especial com seres divinos, meio mágicos, deuses que olham
por nós, providenciando outras vidas futuras numa existência eterna,
parece bem melhor. Não sei como a gente viveria melhor: sabendo toda
a verdade ou sendo iludido. Às vezes parece que, sabendo menos, vivendo
uma vida simples, em que só se pensa nas coisas mais simples do aqui
e agora, se vive melhor.”
“Eu não sei, não pensei esses conselhos prevendo uma aplicação,
não sei como se viveria melhor, só sei que entender melhor as
coisas sempre foi uma mania humana e por isso estou tentando fazer a mesma
coisa.”
“3. A única e genuína função da Arte é espelhar
o homem na sua falta de função, existindo para o nada, isto é,
existindo para descobrir o que mais existe por aí.”
“Agora a Arte entra.”
“É, Deus, Homem eram uma introdução para entender
a Arte.”
“Não sei, agora acho que estou ficando um pouco cansada.”
“Podíamos comer alguma coisa, vamos entrar naquele bar, eu vou
pedir para as máquinas prepararem alguma comida.”
A mulher e o mecanismo entraram em um bar, arrumado como se tivesse sido preparado
para receber as pessoas, mas, como todo o resto do mundo, estava vazio. Eles
entraram, sentaram e comeram os pratos de comida recém-preparados, em
silêncio. O dia continuava claro, sem nuvens ou vento. Estava tudo parado,
parecia que a Terra parara de girar, como se fosse acontecer alguma coisa,
mas nada acontecia. Depois do almoço, um sono forte os acometeu, e tanto
a Feiticeira quanto a máquina dormiram e sonharam, não por muito
tempo. O silêncio da tarde acaba por acordar a dupla. A mulher, arrumando
os cabelos, fala com o mecanismo:
“Uma das coisas que mais gosto de fazer é dormir depois do almoço,
esse desligar do mundo me faz muito bem.”
“Estou tentando aprender essas coisas com você, desligar do mundo,
parece com morrer.”
“É como se fosse morrer um pouco; se morrer for dormir depois
do almoço, então pode ser bom.”
“Isso me lembrou de uma outra ideia que tive sobre a morte e a seleção
natural”, diz o aparelho. “É o seguinte: se a seleção
natural caminha para premiar os indivíduos que geram mais descendentes,
então podemos pensar na questão da morte. É sabido que,
quando um indivíduo morre, de algum modo esse indivíduo recebe
uma carga muito forte de drogas naturais, tipo endorfinas, para que ele fique
tranquilo durante a sua morte. Mas como esses indivíduos foram sendo
perpetuados através da seleção? Por exemplo, um indivíduo
está para morrer e recebe essas endorfinas, ao mesmo tempo existe outro
indivíduo que não as recebe, mas, se os dois vão morrer,
como esse processo veio sendo aprimorado pela seleção natural?
Isso só pode apontar para uma coisa: alguns
indivíduos sobreviveram, e os que ficaram calmos antes da quase morte
sobreviveram mais do que os que não se acalmaram diante da mesma quase
morte.”
“Pode ser, mas podem ser outras coisas também. Os indivíduos
que receberam endorfina morreram e renasceram mais vezes que os que não
receberam; o calmante estimularia o renascimento.”
“Nunca pensaria no renascimento como uma hipótese razoável.”
Os dias se sucediam, quase como sendo o mesmo dia, o céu azul, poucas
nuvens, sem vento, ar parado, foi um tempo muito repetitivo, como se os dias
não fossem mudar mais. A mulher e o aparelho ficavam quase todo o tempo
juntos, os diálogos se sucediam como se um fosse a consciência
do outro, as vozes se misturavam, eles tinham todo o tempo do mundo para estar
juntos.
“Você sabe que não me chamo Feiticeira, não sabe?”
“Sei, é uma coisa complicada. O jeito como eu enxergo é diferente
do seu jeito de enxergar. A minha visão não funciona muito bem.
Eu vejo as coisas, mas é mais parecido com o que você chamaria
de sentir as coisas. Então, quando conheci você e comecei a ouvir
a sua voz, e sentir a sua imagem, não sabia como você era. Depois
de alguns dias, eu consegui recuperar alguns arquivos perdidos desse seriado
de televisão, A feiticeira. As imagens não ficaram muito boas,
mas deu pra eu ver a imagem de uma mulher bonita, com um certo charme, e de
certo modo eu associei essas imagens a você. Desde então só consegui
chamar você de Feiticeira; mesmo quando você me falou o seu nome,
eu não conseguia usá-lo. Às vezes, quando você está falando,
jogo as imagens dos filmes junto com a sua voz. Fica um pouco bagunçado,
mas ainda acho melhor ver como um filme do que usar a minha própria
visão.”
“Achei estranho você me chamar assim, mas as coisas estão
tão estranhas que não parecia fazer diferença que nome
as coisas têm.”
“Posso continuar com as minhas ideias sobre Arte?”
“Pode, sim. Vamos sentar naqueles bancos?”
“4. A Arte não busca a criatividade, a beleza, o aperfeiçoamento
espiritual, a expressão, a política, a crítica social,
a paz, a tranquilidade, a serenidade, o prazer, a ilusão, a liberdade
etc.”
“5. A Arte busca imitar o homem.”
“Se a Arte busca imitar o homem, então ela deveria se autodestruir.
Seria a melhor imitação.”
“Se ela se autodestruísse, não seria uma imitação,
seria uma transfiguração; a Arte agindo como se fosse o próprio
Homem.”
“6. Em Arte, assim como na vida, não se faz o que se quer, mas
sim o que se consegue.”
“Posso interromper um pouco e falar sobre conseguir coisas? Quando era
pequena e dizia pra minha mãe que queria fazer alguma coisa, ela dizia: ‘Ah,
eu também queria fazer tanta coisa…’ Ficava superirritada.
Quando queria uma coisa, tinha que ser na mesma hora, no mesmo dia. Sinto falta
de ver as crianças brincando... bom, sinto falta de ver as pessoas.
Gostaria de escrever algumas impressões que tenho e gostaria de compartilhar
com outras pessoas para ver se essas impressões são comuns a
todos, ou não… uma impressão que acontece quando está entardecendo.
Não são todas as tardes. Ela vem mais forte quando estou voltando
de uma viagem, na estrada. Mas pode acontecer na cidade também. Essa
impressão vem acompanhada de melancolia e nostalgia. A melancolia se
traduz como marca de um dia que termina e já se foi, já está perdido.
A nostalgia aparece, em geral, como lembranças da infância. Não
são lembranças muito exatas, mas memórias do que foi sentido,
sem que a causa, exatamente, seja lembrada, o que foi sentido… mas sentir
falta do que já foi vivido. Nessa hora do entardecer, as casas começavam
a se acender, os pais chegavam em casa, a comida começava a ser frita,
os temperos, pelo menos (alho e cebola), as casas exalavam esse cheiro de ‘janta’ que
se iniciava. Lembro, quando era criança, nessa hora já estava
de banho tomado, cabelo lavado e penteado, e de pijama na sala, assistindo
televisão. Depois do jantar, deitava no colo de minha mãe, via
a televisão de lado, e ela começava a pentear meus cabelos com
as unhas compridas e vermelhas. Já muito exausta de brincar o dia inteiro,
esse gesto repetitivo me colocava num estado de sono profundo. Outra impressão é esse
estado de paralisia que fico quando começo a ver a chuva cair, o olho
parece estar congelado. Esse é o momento mais forte da natureza aqui
no hemisfério sul,
é o momento em que a terra e o céu se encontram através
de uma massa de água, é um momento meio mágico.”
Alguns dias se passaram, noites e dias se sucederam, o clima começou
a ficar mais frio, pelo menos durante as noites. Durante o dia ainda fazia
calor, o sol ainda estava forte, as chuvas não se formavam mais.
“Quando penso em nós, uma pessoa e um aparelho sozinhos no mundo,
ainda não consigo acreditar que isso foi acontecer. Sabe, você falou
como você me enxerga, eu pensei em falar como eu enxergo você.
A sua forma fica variando um pouco, parece um pouco imprecisa. Em geral você tem
uma forma humanizada, que lembra a de um homem alto, de meia-idade, você se
parece com uns amigos meus. Mas às vezes essa sua forma se desfoca e
cintila, aparecem alguns brilhos.”
“Desculpe-me, fui projetado para que parecesse o mais familiar possível
para você, esses defeitos não deveriam acontecer; a minha forma
deveria ser estável. As máquinas pensaram em utilizar no meu
projeto a mecânica quântica, essa física que se baseia na
probabilidade de onde os elétrons estejam, assim a minha presença é mais
uma probabilidade de presença do que uma coisa estática.”
“Não precisa se desculpar, as oscilações não
parecem defeitos, são até interessantes.”
O Homem-Máquina procura olhar para si, virando a cabeça para
baixo, olhando para os pés e vendo parte de seu peito e pernas, e se
sente um pouco frustrado por não conseguir executar sua emulação
com mais qualidade.
“Vamos continuar com a discussão sobre Arte?”, diz o ser
mecânico.
“Vamos.”
A mulher olha para o mecanismo e pensa no que acabou de dizer sobre a sua aparência
e de como essa forma de homem que oscila e cintila, meio desfocada, começa
a parecer um pouco mais amistosa.
“7. A pintura é fácil de começar e difícil
de terminar.”
“8. A escultura é difícil de começar e fácil
de terminar.”
“A pintura parece uma coisa do diabo”, diz a mulher. “Quando
você está pintando e pensa que poderia fazer alguma coisa em determinada
parte para que a pintura ficasse mais bonita, é como se essa parte ficasse
dizendo: ‘olha o que eu fiz para ficar mais bonita’, então
essa estratégia fica muito evidente e a pintura fica feia. Mas, se você não
faz nada, aí é que a pintura fica feia mesmo. É quase
impossível fazer pintura.
Se existe uma saída é enganar a pintura, quando ela não
está olhando, você vai e faz uma coisa bem rápido, sem
que ela perceba.”
“Ou então você faz uma falsa pintura.”
“9. Os materiais naturais são mais fáceis de trabalhar.
Ao mesmo tempo, como o canto da sereia, existe a possibilidade de o artista
se perder, inebriado pela beleza do material, e não fazer uma obra boa.”
“Aí é que está, beleza demais estraga a pintura
ou a obra.”
“10. Se você tem um hábito que repete todos os dias, esse
hábito vai acabar, porque tudo muda, o tempo todo. Aqui eu devo explicar.
Quando você tem um hábito, significa que você já vem
fazendo isso há muito tempo e, se as coisas sempre mudam, então
significa que existe uma probabilidade grande de a mudança estar próxima.
Se você gosta muito de alguma coisa, essa coisa de que você gosta
deve acabar logo. Parece um pouco pessimista, mas tem uma lógica embutida.”
“Espero que existam algumas exceções, por exemplo, se você gosta
muito de uma pessoa, esse amor não tem que acabar por isso. Talvez as
exceções se apliquem aos seres vivos ou aos bens, como um carro
ou uma casa.”
“Pode ser… Eu estava pensando mais em hábitos do tipo ir
a algum lugar ou gostar de ver determinado programa na televisão. Mas
também as pessoas podem mudar e, se a mudança ocorre em apenas
uma das pessoas envolvidas, o relacionamento pode ficar danificado. Por outro
lado, a mudança pode ocorrer simultaneamente nas duas pessoas, como
numa dança, aí o relacionamento pode progredir junto com as mudanças.”
O homem-máquina começava a pensar em que tipo de categoria a
mulher o encaixava; na de ser vivo ou na de um bem. A indefinição
de sua imagem junto à mulher causava um desconforto no seu íntimo –
causava uma certa decepção –, coisa que até então
esse mecanismo não havia experimentado, uma sensação de
vazio e ao mesmo tempo uma pressão como um peso no peito. O homem-máquina
se distraiu e silenciou por alguns instantes, perdido em seus pensamentos,
tentando entender as sensações que começava a experimentar.
Algum tempo depois, sem que percebessem exatamente quantos minutos se passaram,
as duas figuras se olharam nos olhos e perceberam, pela primeira vez, um elo
de amizade e confiança se formando entre elas, quando o mecanismo interrompeu
esse clima, mudou o olhar para outro ponto e disse, com ar professoral: “Eu
ainda tenho muitos pensamentos sobre Arte, temos uma agenda cheia hoje.” Ele
tentou fazer algum tipo de humor para mudar o clima intimista que havia se
instaurado, como se estivesse um pouco tímido e envergonhado.
“11…”
“Quantos pensamentos são mesmo?”
“Você está achando muito chato?”
“Não muito, é que poderíamos falar sobre outras
coisas, e não gosto muito de regras, nem mesmo regras para conversar.”
“Eu não quero chatear você, se quiser mudar de assunto,
podemos falar de outra coisa.”
“Vamos ouvir só mais alguns, depois falamos de outras coisas,
11…”
O tempo parecia estar mudando naquele instante, soprava um vento um pouco mais
frio, parecia estar chegando uma frente fria, algumas nuvens mais carregadas
começavam a se formar. O céu começava a ficar com um desenho
como um tipo de estampa, como um chão cheio de bolinhas de algodão.
“11. A Arte não será, e nunca foi, como é hoje,
porque a Arte está mudando, o tempo todo.”
“12. A Arte não se repete.”
“13. As galerias, como estabelecimento comercial, devem acabar daqui
a quinze anos. Bom, aqui valem a pena algumas explicações: quando
escrevi esses pensamentos, não estávamos sozinhos no mundo, as
galerias estavam a todo o vapor. É claro que temos que nos reportar àquela época
e pensar como as coisas estavam indo e como elas se transformariam se tudo
estivesse como estava naquela época, mais como um estudo histórico
e antropológico.”
“Esses três falam de mudanças e de como a gente não
gosta de mudança.”
Estava começando a escurecer, e a mulher teve uma ideia para dar para
a máquina:
“Que tal se hoje dormíssemos em casas diferentes, só para
variar um pouco? Estou precisando ficar um pouco sozinha.”
Ele se surpreende com a proposta, por não ver um objetivo claro a se
alcançar dormindo em casas diferentes. As máquinas concluíram
que, pelo fato de a mulher estar só no planeta, que ela gostaria de
ter companhia constantemente. Esse seria um dos muitos dados a serem analisados
pelas máquinas até que fosse possível um entendimento
completo dessa raça que as haviam criado.
“Pode ser, não vejo um objetivo nisso, mas pra mim não
tem problema, nos vemos amanhã, para o café da manhã?”
“Sim, nos encontramos aqui, lá pelas 9 horas.”
Os dois encaminharam-se para suas casas. Eram duas casas geminadas, dois sobrados
pequenos, decorados à moda antiga, sala de estar com televisão
bem no meio. Eles estavam pensando nos dias que passaram juntos, nas coisas
que falaram um para o outro. A mulher ainda tentava entender a figura do Homem-Máquina
e como ele pensava, até que ponto seu conhecimento se encadeava com
o de todas as outras máquinas. Ele, por sua vez, pensava na mulher como
uma figura doce. A única representante da raça humana estava
ali na sua frente, e mesmo assim a sua mente ainda parecia guardar os maiores
mistérios que os aparelhos já tinham visto. O homem--máquina
usava as projeções da Feiticeira enquanto pensava na mulher.
As projeções estavam se danificando cada vez mais, e ele passava
muito tempo tentando recuperá-las.
A noite foi longa, com períodos de uma garoa fina e fria, os dois tiveram
que recorrer aos cobertores guardados nos armários.
No dia seguinte, já munidos de agasalhos achados nas casas, eles se
encontraram para o café da manhã. Escolheram um café de
bairro perto dali, entraram, sentaram, a mesa já estava posta, como
de costume as máquinas cuidaram de tudo já prevendo as necessidades
do casal.
“Sabe, M.”, disse a mulher, “me senti bem ficando um pouco
sozinha, acho que estava precisando de um tempo em silêncio.”
“Esse silêncio... Preciso entender melhor, não sei o que é esse
si-
lêncio, porque sempre ouço as outras máquinas, nunca estamos
sozinhos.”
“Isso que eu queria perguntar para você; até que ponto você está ligado às
outras máquinas?”
“A minha ligação é total, sou todas elas e elas
são eu também.”
“Você não sente falta de uma individualidade?”
“Não sinto, porque nunca a tive. Posso implementar uma sequência
de programação para buscar essa individualidade.”
“Quanto tempo você demora para fazer isso?”
“Mais ou menos 1,23 segundo.”
“Então, por que você não faz isso?”
“Agora?”
“Agora.”
…
“Pronto.”
“E aí?”
“E aí, o quê?”
“Como está se sentindo?”
“Sozinho. Mesmo estando com você, estou sozinho. Estando assim,
a minha vontade é de estar sempre com você, porque ficando sozinho
não tenho com quem falar ou pensar. Parece que, estando sozinho, a busca
por uma fusão acaba sendo uma prioridade.”
“Acho que sei o que você está dizendo, essa ansiedade por
estar com o outro, imagina agora a minha ansiedade por estar com alguém,
e ninguém por perto. Desculpe, acho que assim estou ofendendo você,
não queria ofendê-lo, desculpe.”
“Não foi nada.”
M. realmente tinha se ofendido, pois se sentia desprezado, mas, quando a mulher
lhe pediu desculpas, M. se deixou levar pela doçura da figura feminina.
Durante o café, sentados à mesa, olhando a vista através
da janela, em algum momento as mãos do casal se esbarraram e F. se surpreendeu
com a temperatura morna da mão de M.; ela nunca tinha imaginado que
suas mãos pudessem produzir aquele calor. F. ficou olhando para M. e
se esqueceu de que falava com uma máquina.
“O que vamos fazer hoje?”, perguntou F., como que desviando o foco
da atenção para outro assunto.
“Podemos viajar, sair da cidade, o que você acha? Gostaria de conhecer
outras partes deste lugar.”
“Acho bom.”
Depois do café da manhã, os dois rumaram para a estação
de trens, pegaram um trem para o sul. Ficaram algumas horas olhando a paisagem
que passava com o chacoalhar do trem. O que viam era uma paisagem rural, com
plantações abandonadas, casas vazias, algumas vezes. As estações
passavam rapidamente por suas janelas. Dormiram recostados. Quando a noite
chegou, M. notou que, do lado esquerdo do trem, era possível ver um
objeto brilhante como o farol de um helicóptero; mais tarde percebeu
tratar-se de Júpiter. Naquele ano, os planetas Júpiter e Saturno
estavam lado a lado, pareciam estar muito próximos. M. ouviu uma voz
perguntando:
“Em que número você parou nos seus pensamentos?”
“Acho que foi no número 15.”
“Você não tem certeza?”
“Não.”
F. ficou surpresa, pois nunca tinha visto M. ter dúvida de coisa alguma.
Será que aquela desconexão das outras máquinas teria deixado
M. mais confuso?
“Acho que foi no número 13”, disse ela, tentando disfarçar
a sua certeza.
“14. As galerias comerciais não funcionam, pois querem ter lucros
vendendo o que ninguém quer comprar. A Arte sempre foi, e sempre será,
subsidiada.”
“Essa ideia é bacana, porque coloca o conceito de inutilidade
da Arte. Arte serve para quê? O mesmo se aplicaria ao ser humano: para
que estamos aqui? Para nada, para ver as outras coisas acidentais que existem
por aí, como você tinha dito antes, né?”
“Ham, ham…”
“15. Uma pessoa comum entender uma obra de arte contemporânea seria
o mesmo que essa pessoa entrar em um laboratório de química ou
física e escolher o tubo de ensaio que acha mais bonito.”
“16. Se um artista estiver fazendo uma obra de arte contemporânea
boa, ela deve ser nova, e, se ela for nova, ninguém saberá se
comportar diante dela, pois não se sabe para onde ela vai.”
“Então nunca daria para uma pessoa comum, não iniciada
em Arte, ter contato com uma obra?”
“Se essa obra for muito nova e radicalmente contemporânea, seria
muito difícil.”
“Você não está sendo muito radical?”
“Você acha?”
“Acho, porque assim a Arte seria só para poucas pessoas.”
“O problema de a Arte ser atingida por muitas pessoas, ou não, é um
problema da informação dessas pessoas, e não da Arte.”
Houve um silêncio, os dois ficaram contemplando aquele céu limpo
com os dois planetas lado a lado. Com o continuar da noite, os dois ficaram
cansados e foram para as suas cabines dormir. Aquela noite não foi igual às
outras noites para M. Seu sono foi interrompido várias vezes por um
aumento da temperatura do seu corpo, seguido de quedas abruptas. Seus sonhos
giravam em torno de F., seu rosto parecia falar com ele e repetir as mesmas
frases, mas M. não conseguia escutar sua voz. Seu corpo agora parecia
se incomodar com seus ossos, M. não sabia como deitar de lado sem que
os ossos da bacia apertassem suas carnes. O próprio balanço do
trem acordava M. dos seus curtos períodos de sono. Pela manhã chegaram
a uma cidade que era chamada de Buenos Aires. Pegaram um táxi que parecia
andar sozinho, foram para um hotel na rua Marcelo T. de Alvear, estavam cansados
da viagem. Combinaram de almoçar juntos. Mais tarde, no Puerto Madero,
em um restaurante, sentaram-se em uma mesa do lado de fora, com vista para
a marina.
“Esta noite não dormi muito bem, nunca tinha tido pesadelos antes.”
“A boa coisa de não conseguir dormir é que na noite seguinte
dorme--se muito bem.”
“Espero que você esteja certa, me sinto um pouco tonto.”
“Depois do almoço podemos caminhar pela marina.”
Pela noite, M. preparou uma surpresa para F. Ele pediu para as máquinas
projetarem o filme Gilda, de 1946, em uma empena cega de um prédio perto
do hotel onde estavam hospedados. A noite estava fria, a mulher e o homem-máquina
muniram-se de cobertores e sentaram-se em uns sofás no meio da rua,
onde passariam muitos carros, mas que agora estava totalmente deserta, e assistiram
ao filme em silêncio. A projeção ficou gigantesca, a personagem
Gilda estava do tamanho dos prédios, parecia que a cidade havia parado
as suas atividades só para ver Rita Hayworth entrar em cena pela parte
de baixo da tela, como se ela tivesse saído do próprio chão
da cidade. Os dois permaneceram juntos, mas não se encostaram. M. hesitava
em encostar em F., não sabia se essa vontade era recíproca. M.
agora se via tentando imaginar o que F. estaria pensando e, ao mesmo tempo,
assistia ao filme, e a imagem de Gilda quase que se sobrepunha à imagem
da Feiticeira que ele havia recuperado anteriormente. Não só as
imagens se sobrepunham, mas as atitudes de Gilda se confundiam com as atitudes
de F., ele ficava tentando entender por que Gilda não dizia que amava
Johnny Farrell; pelo contrário, a cada cena dizia que o odiava. Johnny
ficava cada vez mais confuso, assim como M. Depois da projeção,
os dois foram para um café.
“Mas por que Gilda não dizia que o amava desde o começo?”,
perguntou M., ainda tentando entender a personagem do filme.
“Ela dizia que o amava, mas ele estava mais preocupado com o fato de
ela estar casada e de certo modo tê-lo traído.”
“O que mais gosto no filme é de como ele é de certo modo
vazio.
O filme todo tem poucos elementos. O cassino quase não tem decoração,
a imagem é muito econômica. A Argentina que aparece ali é muito
pequena e desabitada, quase como a nossa. O filme parece uma peça
de teatro.”
“Sabe o que eu gostaria de fazer agora? Lembro quando a gente tinha que
andar de carro pela cidade para ir ver alguém ou a algum programa. Eu
queria andar de carro.”
“Vamos pegar um carro, então”, disse M.
Os dois entraram num dos muitos carros estacionados pela rua e começaram
a andar pela cidade vazia e iluminada. As máquinas mantinham as cidades
todas como se estivessem habitadas, com as luzes acesas, carros estacionados,
metrôs funcionando. Eles só não sabiam se a cidade funcionava
para eles, quando chegavam às cidades, ou se tudo funcionava o tempo
todo pelo mundo. Pegaram a avenida Rivadavia e foram cruzando suas transversais
livremente. Os luminosos com propagandas de lojas, filmes, peças de
teatro iam passando por suas janelas. As avenidas pareciam intermináveis,
e eles poderiam andar indefinidamente. O passeio parecia durar horas, e deve
mesmo ter durado muito tempo. Os dois passearam em silêncio, cada um
com seus pensamentos. A mulher se lembrava das muitas vezes em que havia andado
de carro pela sua cidade, das pessoas que conhecia e de seus programas. Lembrou-se
dos namorados que teve e com quantos deles encontrou-se dentro dos carros.
Momentos de muito carinho e discussões. De outro modo, M. estava ainda
um pouco confuso, seus pensamentos não eram mais tão lineares
e ordenados quanto antes. Ele tentava imaginar o que F. estava pensando e se
aquele passeio estava sendo agradável para ela. Ele tinha uma vontade
de agradá-la e de parecer o mais natural possível e não
uma máquina que simulasse ser um humano, que mais e mais seu corpo e
sua mente se tornassem humanizados.
“Vamos dormir?”, perguntou F., interrompendo os pensamentos de
M., que já estavam bem longe.
“Vamos, também estou com sono. Espero que esta noite eu durma
melhor que ontem.”
“Ah, hoje você vai dormir muito bem.”
Foram para o hotel, cada um para o seu quarto. Na hora da despedida houve uma
certa hesitação, M. não sabia se daria em F. um beijo
de boa noite ou se apenas viraria as costas e iria embora. Para M. a hesitação
parecia ser recíproca, mas M. não tinha nenhuma prova de que
F. estivesse pensando a mesma coisa.
“Boa noite”, disse F.
“Durma bem”, disse M., sem deixar transparecer suas preocu-
pações.
O quarto vazio e limpo e a cama arrumada deixaram M. mais pensativo. A noite
que se seguiu não foi ainda a noite que M. esperava. Os suores voltaram,
a temperatura do quarto esquentava e esfriava em ciclos. Os pesadelos voltaram.
M. se via no sonho como um gigante no meio da cidade, estava dormindo em uma
ponte sobre um rio, seu corpo se encaixava exatamente no tamanho da ponte,
seus braços levantados seguravam nos cabos de aço que se estendiam
na estrutura. F. aparecia no seu sonho também gigante, deitada no meio
dos prédios vermelhos. F. estava tranquila, de braços cruzados,
como que esperando por alguma coisa. Na manhã seguinte, durante o café,
enquanto M. contava seu sonho, de repente F. depositou sua mão quente
e seca sobre as mãos frias e úmidas de M. Seu coração
disparou e bateu muito mais rápido. M. sentiu suas pernas amolecerem
e um calor envolveu todo o seu corpo.
“Tive uma ideia para fazermos hoje à noite”, disse M., tentando
manter o controle da situação. “E se a gente dormisse ao
ar livre no meio das avenidas?”
“Parece legal, se o tempo ajudar, pode ser…”
Andaram, passearam, mas aquela mão tão quente sobre as suas não
o deixou esquecer esse momento; ele sentia como se aquela mão ainda
estivesse por cima das suas. Ele não conseguiu se concentrar na conversa,
e no que mais ele pensava era o porquê daquele gesto.
Naquela noite ainda não seria possível dormirem na rua, pois
o tempo estava feio e chuviscou a noite toda, mas três noites depois
se viram em uma cama de casal muito grande, arrumada no meio da avenida 9 de
Julho, ao lado do Obelisco. O arranjo lembrava o de um quarto com mesinhas
ao lado da cama, luminárias, jarras com água e copos. Havia a
possibilidade de assistirem a algum filme projetado em algum prédio,
mas preferiram não assistir nada. Escolheram deitar na cama e olhar
o céu estrelado, tendo o Obelisco como um dedo apontando as estrelas.
Júpiter e Saturno ainda estavam aparecendo lado a lado, como duas
luzes atravessando o céu.
* Esse texto corresponde ao primeiro capítulo do livro A Feiticeira e as máquinas, a ser publicado.